Grande Reportagem

Partir por quem longe precisa, regressar repleto de momentos e lições

A missão de partir para o desconhecido em prol de quem subsiste em grandes dificuldades é uma missão centenária, com origem espanhola e repercussões em todo o planeta. Os testemunhos de dois jovens portugueses sublinham os acontecimentos inesperados, as aprendizagens e o trabalho a desenvolver no Médio Oriente e sul da América.

No ano de 1911, na região das Astúrias, foi fundada a Instituição Teresiana, em homenagem a Teresa de Ávila, com o eclesiástico San Pedro Poveda como um dos principais impulsionadores do projeto. Pedro Poveda ficou na história pela quantidade de projetos de âmbito social que promoveu e pela proximidade junto dos mais carenciados e dos jovens. O seu espírito social e a sua fé inspirou milhares de cidadãos que, hoje, procuram combater a desigualdade social e dar voz aos jovens, “os motores da mudança”.

A associação internacional de leigos da Igreja Católica está espalhada por todo o mundo, e Portugal não é exceção. Em parceria com outras entidades, entre as quais várias universidades, todos os verões são dinamizados projetos nos diversos pontos do globo. A experiência vai além da área da educação e, independentemente da idades e dos tempos, deixa memórias, pelo vivido, visto e sentido, nos elementos da Instituição Teresiana.

Projeto em Kintambo, região da República Democrática do Congo, em 2015
Fotografia fornecida por Anabela Rodrigues, representante da Instituição Teresiana em Oliveira de Azeméis

Uma vida em prol dos outros

“Há muitos anos” ligada à Instituição Teresiana e a trabalhar desde 2012 na área de cooperação internacional com os jovens, Júlia Gonzalez partilha, via ‘Skype’, a sua visão sobre a associação e os seus projetos. Admite que aos 73 anos e 55 anos depois de ter entrado na instituição continua a aprender, continua a crescer na sociedade. Pela sua vontade de viajar e força de iniciativa, é vista por muitos elementos da associação como um exemplo a seguir.

Júlia Gonzalez recorda com emoção a sua primeira aventura, na década de 60. A viagem a Inglaterra e à Irlanda do Norte marcou a jovem espanhola, que não conhecia além da sua realidade nacional. “Foi uma grande aventura, completa e difícil mas bonita”, lembra, com a voz trémula de quem deseja voltar a esses tempos. A maior lembrança prende-se com a cultura comunitária ligada às colónias, o que tornava a sociedade britânica mais heterógena.

O tempo vivido na Grã-Bretanha serviu para Júlia Gonzalez partir à descoberta do mundo e “encontrar pessoas fantásticas, sobretudo jovens”. Sempre num tom e a uma velocidade que permitia acompanhar o discurso castelhano, sublinha que foi nesta aventura, há mais de 50 anos, que aprendeu a escutar e aprender com quem a rodeia.

Espírito lusitano além-fronteiras enquanto exemplo

Marta Ribeiro e Diogo Amaro, ambos naturais de Oliveira de Azeméis, chegaram aos projetos dinamizados nos vários cantos do mundo à boleia da Instituição Teresiana e do programa “Erasmus+”. O estudante na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais passou parte do último verão na Bolívia. Por sua vez, a estudante de Biologia na Universidade do Porto viveu mergulhada na realidade da Índia. Júlia Gonzalez esclarece, por considerar importante não serem levantadas ideias erradas, que a Comissão da União Europeia, após várias reuniões, aceitou cofinanciar os vários projetos. Explica, ainda, que os países a trabalhar são escolhidos, entre outros aspetos, pela proximidade da Instituição Teresiana da realidade social e da presença de filiais nos países vizinhos.

Presença da Instituição Teresiana no mundo até ao fim do século XX
Fonte:
teresianassociation-e7.eu/spip.php?article31&lang=fr

Diogo Amaro considera, sem qualquer dúvidas, que a presença em continentes diferentes e o intercâmbio gerado é uma oportunidade única para enriquecer as comunidades envolvidas. Enquanto resolve os seus afazeres, sublinha o quão necessário é, com o pensamento no futuro, ter a oportunidade de colocar em prática todo o saber adquirido ao longo dos anos de formação no Ensino Superior.

Ao parar para respirar um pouco, o jovem oliveirense assume que foi “atraiçoado pela ganância” das suas expectativas. “Enquanto jovens queremos ter um papel prático”, explica Diogo Amaro. Ainda assim, recorda com orgulho e felicidade a dinamização de ‘ateliers’ junto dos jovens bolivianos, as atividades de manutenção dos espaços escolares e os momentos rotineiros de interação.

Júlia Gonzalez apelida os jovens portugueses de “super interativos”, amáveis, profundos e admite que “los queremos mucho”. Acrescenta que é importante os jovens seguirem o seu exemplo, por considerar ser “tremendamente negativo” as camadas mais novas da sociedade se encontrarem “sem forças, sem valores”.

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Perigos expostos, realidades distintas escancaradas à entrada

A poucas horas de embarcar nos respetivos aviões, os dois estudantes receberam vacinas e conselhos, a fim de prevenir para os perigos. Marta Ribeiro reteve os conselhos quanto à presença na sociedade indiana da malária e da hepatite, assim como o perigo de beber água não engarrafada e de andar descalço. O caráter maléfico presente num pão com queijo ou numa picada de mosquito que, segundo Diogo Amaro, pode provocar diarreias ou febre-amarela, deu que pensar quanto ao choque cultural que o esperava.

Os primeiros passos em solo indiano, o primeiro choque. “Não esperava um aeroporto tão luxuoso, digno de filme”, recorda Marta Ribeiro. À saída, deparou-se com a “realidade caótica, a começar pelo trânsito”. Entre barracas e estradas lamacentas, conta, eram encontrados edifícios envidraçados, que espelhavam o contraste social na Índia.

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Chegado ao sul do continente americano, Diogo Amaro deparou-se com “um povo muito trabalhador”, em que todos tinham uma profissão, mas onde, devido ao nível de pobreza, “a ocupação apenas permite lutar pela sobrevivência”. O jovem de Oliveira de Azeméis lembra as ruas da Bolívia, repletas de esgotos a céu aberto e de meros cidadãos a dormir na rua com um lençol para, de algum modo, reconfortar. Depois de uma pausa para arrumar essas imagens mentais, Diogo Amaro aponta, com alguma revolta, como principal causa o “processo de descolonização às três pancadas”, que deixou a Bolívia despida de “pessoas capazes para governar e liderar o país”.

Interação que ultrapassa idiomas, elementos e ações que edificam o choque cultural

Na aldeia indiana de Gonaver, os avisos quanto à segurança não eram apertados como nas metrópoles, o que permitiu ao grupo em que Marta Ribeiro estava inserida estabelecer os primeiros contactos com a população local. A educação promovida em torno do idioma britânico permitiu que a relação criada com as crianças e jovens fosse mais sólida, ao contrário do sucedido com os adultos, que não usufruíram de tal oportunidade. Ainda assim, a procura de interagir com quem não está habitualmente presente, leva a estudante oliveirense a não ter dúvidas quanto à hospitalidade das comunidades indianas.

O vestuário espelha, segundo Marta Ribeiro, a desigualdade entre géneros presente na sociedade indiana. Independentemente das religiões, as mulheres vestem o ‘Saree’, a peça de roupa tradicional feminina, um elemento de forte simbologia social. Em sentido contrário, os homens vestem o que mais gostarem. A jovem oliveirense recorda a “aventura” em torno desta peça, que levou horas a vestir e “não era cómodo para caminhar”.

Na Bolívia, Diogo Amaro considera que obteve a oportunidade de percecionar a realidade, depois de sair do seu “cantinho”. Desde o inverno a saber a verão à comida, passando pelo que se vê e vive no dia-a-dia, o estudante defende que todos estes elementos constroem o choque cultural. Respirou fundo e lembrou uma história que não mais vai esquecer. No autocarro para o regresso a casa após mais um dia de trabalho, um dos elementos do grupo viu o seu telemóvel ser roubado através da janela do veículo. De cabeça quente, Diogo Amaro e os seus colegas perseguiram o sujeito, até que se viram encurralados, num beco, por outros bolivianos. Ficou o dinheiro e os telemóveis. “A questão do choque cultural passa também pela segurança, que espelha o nível de vida”, refletiu.

“Mais do que dei, recebi e aprendi”

Depois de vários passos dados nos meses que antecederam a viagem, chegara a hora de aplicar as aprendizagens absorvidas. Depois de três semanas na Índia, Marta Ribeiro sublinha que, fruto da realidade e organização social, a educação oferecida às camadas mais novas “não é suficiente para que o futuro seja risonho” na maioria dos casos. De olhos no que a vista mais longe alcança, não esquece o inglês fluente dos meninos indianos mas lembra a “realidade limitada” em que estão inseridos, onde as oportunidades escasseiam e o desenvolvimento social é lento, espelhado, por exemplo, pelo fosso entre géneros.

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Por terras bolivianas, Diogo Amaro encontrou “pessoas muito capazes”, até mais capazes do que si, mas sem qualquer grau de formação académica. Através do lema da Instituição Teresiana, o estudante frisa que a esperança do mundo são jovens. Por isso, afirma convicto que o futuro será risonho para a Bolívia, um país com cidadãos capazes, onde os jovens do presente têm potencial e sonham alcançar mais, tanto na sua vida como para o seu país.

A aventura no Médio Oriente e no sul da América ofereceu algumas lições aos dois jovens portugueses. A humildade, a simplicidade e o gosto pela interação fez refletir quem se deslocou à Índia e à Bolívia com o propósito de promover a educação.

Marta Ribeiro lembra, com alguma emoção, o dia em que visitou a casa de uma família com poucos recursos. Descreve uma casa pequena para uma família grande, para uma grande família. “Embora tenham poucas condições, ofereciam tudo o que possuíam e ficavam ressentidos se não aceitássemos”, recorda.

“A maior aprendizagem foi a vida comunitária”. Diogo Amaro destaca o quotidiano partilhado com jovens de outros países sul-americanos e como os dias se podem tornar “agridoces”, o que para si simboliza o “enriquecer do saber estar em comunidade”.

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Na travessia de rotas dos Inkas, o grupo onde o estudante português esteve inserido cruzou-se com uma comunidade local. “Ontem passou aqui uma pantera”, disse uma criança a Diogo Amaro, que achou que fosse brincadeira de quem procura impressionar os visitantes. Quando percebeu que a conversa era factual, o estudante refletiu sobre como a ética humana destruiu a diversidade biológica. Diogo Amaro frisa, ainda fascinado com os locais encontrados por via dessas rotas, a dificuldade em encontrar lugares puros e remotos onde o humano “não ousou chegar”.

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Memórias de sentimentos, uma nação pluricultural e a missão cumprida no quotidiano

De olhos no céu, onde são traçados destinos, Marta Ribeiro garante que a memória guarda os sorrisos, as interações e os momentos dos dias vividos em solo indiano. Não esquece as vacas, que “andavam livres na rua”, o longo casamento a que assistiu, que se assemelhou a uma peça de “Bollywood”. O maior destaque da aventura vai para a felicidade e ligação com as crianças com que contactou. Enquanto observa o seu Rakhi, pulseira tradicional indiana que simboliza a confiança estabelecida entre familiares e amigos, reitera que aprendeu mais do que ensinou.

No momento de escolher um objeto que resume as semanas vividas na Bolívia, Diogo Amaro elege o que possui um sentimento mais especial. A criação da bandeira onde estão identificadas as 70 representações culturais representa, para o jovem oliveirense, a nação pluricultural que é a boliviana.

Com a Instituição Teresiana como um dos pilares da sua vida, Júlia Gonzalez admite que a sua missão é acreditar e trabalhar por um mundo melhor, procurando transmitir essa moral aos jovens com quem interage. Aos 73 anos, a cidadã espanhola recorda, com emoção, que quebrou barreiras linguísticas e geográficas, pelo que se sente feliz. Júlia Gonzalez finaliza ao revelar que sabe a receita para atingir um mundo melhor. “Formamos jovens que lutem por uma sociedade mais humana, que olhem para a inclusão e que promovam os valores democráticos”, termina, convicta de que a missão está a ser cumprida.

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